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Racismo é uma das coisas mais ignominiosas que já produziu a mente humana. Em seu nome se fizeram guerras, se dizimaram povos, infelicitou-se o mundo. É a barbárie levada ao extremo, o estabelecimento de uma diferenciação não autorizada pela natureza, pela filosofia, pela antropologia ou qualquer outra ciência. A crueldade da idéia racista é que quase todos negam a existência do sentimento e o praticam permanentemente.
E a gravidade maior é que é um processo altamente reativo, em que os atingidos pelo racismo voltam-se para dentro do sua próprio grupo e passam a desenvolver o mesmo sentimento contra os que o discriminam. Portanto, trata-se de uma espiral crescente, em que fica extremamente difícil fazer qualquer espécie de intervenção e em que o movimento de retorno nunca é espontâneo, pelas mágoas que acumula. Os mecanismos legais existem, mas são ineficientes. No Brasil, há muitos anos, o crime de racismo é considerado hediondo e inafiançável, por força da Lei Afonso Arinos. Esse instrumento legal tem trazido bons resultados, quando acionado, porém isso raramente acontece e o racismo segue impune, na maior parte das vezes.
O pior é que continuamos a ouvir que no Brasil não há racismo. Que são episódios isolados, por razões pessoais e não raciais. Até ouvirmos um Governador de Estado que fez a observação racista "por brincadeira". Na verdade, o que subjaz ao racismo não é o preconceito por ele mesmo, mas pelas alterações sociais que se experimentam e o choque de interesses econômicos, pela inserção das minorias raciais no processo de trabalho e renda. Quando aos grupos majoritários na população vêm as minorias galgando melhores condições sócio-econômicas, educacionais, concorrendo nas oportunidades de emprego, passam a reagir contra elas, as minorias, realçando a questão racial como um disfarce para as verdadeiras razões, às vezes até de maneira inconsciente. As minorias rechaçadas reagem de forma natural e espontânea e acabam desenvolvendo um sentimento racista reverso, que acaba criando um barril de pólvora social, aguardando apenas a aproximação de um fósforo para explodir.
Num mundo prenhe de violência, numa nação em que começam a se instalar instituições de caráter racista, regionalista e mesmo criminosa, uma "contribuição" como a do Governador do Distrito Federal pode ser o início de uma conflagração social, mais uma para um Brasil que não precisa. Na espiral do racismo, que avança cada vez mais rápida, estamos vendo o perfil de um tornado que avança sem controle e sem limites. Cabe à sociedade – toda ela e não apenas à sociedade negra – repudiar e fazer punir criminosos que cometem o crime abominável do racismo, não importando se o criminoso é um cidadão qualquer ou alguém ungido pelo voto popular. Ou formamos um anticiclone social ou pereceremos todos nessa amarga, injusta e insana realidade. |