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Partículas Elementares

Outro dia experimentei o gosto amargo do quão medíocres somos todos nós. Depois de uma semana de leitura, não podia esperar para saber que desfecho teriam aquelas trezentas e poucas páginas, de um livro escrito por um francês que antes de tudo me pareceu um lunático. Era de fato um romance, mas diferente dos outros todos que tinha lido até então. Ao contrário deles este tratava da vida real, pura, sem qualquer pudor e meias palavras. A leitura aparentemente fácil ia aos poucos revelando-se em uma trama que desafiava minha própria existência.

Estou falando de "Partículas Elementares", de Michel Houellebecq, uma obra imprescindível para aqueles que um dia já olharam para a vida com olhos inquietos. O enredo tem como base a história da vida de dois irmãos por parte de mãe, Michel e Bruno, e de algumas das pessoas que os rodearam ao longo das suas existências. Nada incomum, não fosse pelo fato de que os relatos do autor são voltados para as questões mais elementares e intrínsecas da vida humana: sexo, valores sociais, família, decadência física e moral, laços sangüíneos, o outro, amor, liberdade. Sem construir um mundo cor-de-rosa e longe de ter traços positivistas, Houellebecq, constitui uma obra única acerca do ser humano, do seu reinado, da sua decadência e do futuro que possivelmente o espera.

Traduzido em 21 idiomas e escolhido, "Partículas Elementares", sem dúvidas, provoca em todos que se aventurarem por suas linhas horas de silêncio e reflexão. Envolvendo o leitor na história dos personagens, o autor vai aos poucos introduzindo teorias que ao final da obra irão constituir sua problemática principal, o suicídio do homem ocidental, e por isso a justificativa da nova etapa da vida humana na terra. Ao mostrar a decadência do homem moderno, e todo o contexto da história que o acompanhou a partir dos anos 60, Houellebecq é perfeito na sua proposta. Com frases exatas ele acaba por banalizar a vida a humana sem que isto desperte no leitor a revolta natural de quem se defende de um ataque iminente. Talvez porque, no fundo, ao mesmo tempo que ele destrói nossas realidades, fornece a luz que nos leva a uma nova edificação. Assim, paradoxalmente simples e grandioso, como se fosse um deus.